- 1 de set. de 2020
- 4 min de leitura
Atualizado: 19 de nov. de 2020

A pandemia do COVID-19 mudou tudo que estava sob controle globalmente no
mundo. Expectativas frustradas, planos adiados, rotinas tendo que ser reinventadas dozero. O sistema de trabalho padrão foi transformado no que dá para fazer de casa.
Tem levado o nome de home –office, mas nem sempre está bem estruturado. A
empresas se viram obrigadas a liberar funcionários, que tiveram que encontrar algum jeito de continuar trabalhando onde antes era o local de descanso.
Como sociedade, estávamos acostumados com a divisão trabalho/casa e com
as expectativas de cada uma. No trabalho, estrutura, organização, performance. Em
casa, relaxamento, menores expectativas, reposição de energia e nosso vestuário
também seguia esses limites.
O novo cenário do trabalhador desapareceu com os limites e acentuou uma
tendência que já vinha acontecendo que é uma busca por conforto no vestuário e a
normalização de códigos mais informais, esportivos.
Há décadas a sociedade vem buscando e criando novas formas de fazer com
que roupas sejam mais confortáveis. Quanto mais ativa a vida humana foi ficando,
mais as roupas tiveram que ser adaptadas para servir ao ritmo.
Podemos começar a pensar em conforto e roupa esportiva lá em 1890, quando
o ciclismo virou tendência no período Eduardiano e para que as mulheres pedalassem
com facilidade, foram criadas as bloomers, que eram peças semelhante às calças,
presas em algum ponto entre o joelho e o tornozelo. (OHARA, G. A Enciclopédia da Moda
de 1840 a 1980.)
Outro momento de “libertação feminina” foi no começo do século XX estilistas
como Paul Poiret, Madeleine Vionnet, Coco Chanel pensaram em novas silhuetas que
não apresentavam a necessidade do uso do espartilho.
Poiret porém é quem recebe o grande crédito de assegurar que “seus
desenhos recebessem atenção e reconhecimento por essa guinada” como dito em
(STEVENSON, N. J. Cronologia da moda.). O que marcou Chanel, e também a destacou pelo abandono do espartilho, era a mistura do estilo masculino e das referências esportivas em seu design. “ As roupasde Chanel eram criadas para ser usadas sem espartilhos, eram feitas com menos forro para ficarem mais leves e menos rígidas” (OHARA, G. A Enciclopédia da Moda: de 1840 a 1980). O uso do Jersey como material para a produção de suas peças era uma
inovação, já que o tecido era para roupa de baixo masculina.
“Em 1920 lançou calças largas para mulheres baseadas na boca de sino dos
marinheiros, chamadas de ‘calça de iatismo’. Dois anos depois, Chanel lançou amplos
pijamas para praia generosamente cortados”. (OHARA, G. A Enciclopédia da Moda de 1840
a 1980.)
A criação da calça de moletom como conhecemos é dada para Emile Camuset,
da marca esportiva Le Coq Sportif, também na década de 20. O estilo ficou
popularizado também ao ser usado por esportistas nas Olimpíadas e a preocupação
com o corpo e saúde foi ficando mais comum.
Por um tempo, as roupas de ginástica se assemelhavam às roupas casuais,
porém feitas de materiais mais confortáveis como malhas, algodão, etc. Ao longo de
décadas, muitas barreiras estéticas foram sendo ultrapassadas. As pessoas ficaram
mais acostumadas a ver mulheres de calça, uma casualidade começou a fazer parte
do vestuário, consequência também do movimento hippie que trouxe o jeans para a
vida diária o boom do sportswear aconteceu nos anos 80. Nesses mais ou menos 50
anos o salto em desenvolvimento têxtil, aliado ao auge da aeróbica e jogging.
A influência esportiva estava por todo lado nos anos 80 apareceu nas cores e o
elastano estava em vestidos, calças, tudo que se pudesse imaginar. Todo mundo,
praticando esporte ou não, assimilou a ideia de conforto da roupa esportiva. O estilo
esportivo se inseriu em estilo mais formais e era possível fazer o conjunto tênis
esportivo e terno feminino.
O moletom, aquele lá dos anos 20 virou uma peça básica, casual e jovem. É o
penúltimo degrau de casualidade, um conforto acima do pijama. Aceitável para tarefas
cotidianas, mas tabu para o mercado profissional.
Coincidentemente, a moda esportiva já dá sinais de que não ficará mais
inserida em uma só função. No programa, uma pesquisa realizada em 2013, pelo
Journal of Consumer Research, mostrada no programa “ Explained” da Netflix, com
vendedoras em Milão mostra que a roupa esportiva é sinônimo de dinheiro dando mais
status à usuária do que um casaco de pele.
Buscamos alternativas que proporcionem mais conforto há séculos. E foi nas
inovações nas roupas esportivas que encontramos boas soluções, como o moletom, o
elastano, a legging, entre outras.
Em 2017, o site Business Insider trouxe descrição do estilo Atlheisure, um
híbrido entre roupa esportiva e casual, durabilidade e conforto para usar o dia inteiro.
E em um mundo com tanta correria e compromissos que se misturam, a tendência foi
rapidamente assimilada pelo mercado.
O que se viu durante o período do isolamento social foram memes, piadas em
um misto de consolo para mostrar que as roupas de trabalho não sabem o que está
acontecendo com seus donos já que esses mesmos já não sabem o que fazer de sua
imagem pública.
A casa era o refúgio onde era possível tirar o sutiã, o salto e se despedir por
algumas horas das pressões estéticas. Se o trabalho é feito em casa, sem a
necessidade de aparecer em câmera, para que trocar de roupa? Para que sujar mais
coisas e ter ainda mais trabalho depois? Para que colocar uma calça social e um
sapato desconfortável se ninguém vai ver? Pantufas e chinelos são mais que
suficientes.
As partes de baixo foram as primeiras que ficaram obsoletas. Quando existe
uma reunião, uma aula online dá para correr para colocar uma blusa e colocar um
brinco e ficar “mais apresentável”.
Percebendo essa tendência e empresa japonesa Whatever Inc. chegou a criar
um modelo próprio para esse momento de fusão com uma parte de cima na metade
superior como uma camisa e a parte de baixo e calça feitas de moletom.
Com o mundo ainda parcialmente paralisado pela pandemia não sabemos ao
certo como as tendências de moda serão impactadas por esse momento de reclusão,
de falta de definições entre casa/trabalho, mas, ao que parece, a priorização do
conforto é mais que uma tendência, é uma conquista da qual humanidade que não vai
desistir.

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