- 22 de dez. de 2020
- 3 min de leitura

Excludente ou classificatória, a moda nos permite explorar e compreender a
sociedade e as representações do corpo feminino. É fácil analisar na história
da indumentária as relações de binarismo, trazendo um conciso recorte
histórico, no séc. XVIII, antes da Revolução Industrial, os homens tendiam a se
vestir de forma que nos tempos atuais diríamos exagerada, com composições
cheias de babados e rufos, no início séc. XIX, os papéis se invertem, visto que
as mulheres passam a utilizar trajes mais complexos, detalhados e
glamorosos. Entretanto, as roupas ditas como glamorosas além de representar
uma aceitação social, tinha um objetivo de agradar o sexo oposto.
O séc. XIX foi importante para o universo feminino no mundo da moda, no
início do séc. as roupas eram influenciadas pelo Neoclássico, que definia o seu
ideal como: beleza, moda e arte, se assemelhando ao máximo as estátuas
gregas da antiguidade clássica. Porém, o final do século é um momento
descrito pela necessidade das mulheres de abandonar os espartilhos, saiotes e
saltos para adotar vestidos simples, foi também nesse momento histórico que
as mulheres passaram a adotar roupas ditas masculinas como as calças, uma
representação de poder unicamente masculino que chegou a ser proibida por
lei em 1800 de serem utilizadas por mulheres. No entanto, atividades físicas
passaram a ser cultuadas por aquelas que vieram antes de nós e foi através do
esporte, mais precisamente das bicicletas que a emancipação começa a
ganhar força, as ‘’magrelas’’ tiveram um grande papel na autonomia feminina,
as ditas calças utilizavam na época possuíam um volume proeminente, que
muito se assemelhava a uma saia, denominadas de calças bloomer em
homenagem a feminista Amélia Bloomer. A praticidade venceu o preconceito e
a opressão, a mudança do cenário mundial trazida pela guerra, trouxe à tona a
precisão de as mulheres assumirem os postos de trabalho deixados pelos
homens e a calça comprida foi inserida na vida das cidadãs comuns por uma
questão de necessidade.
Não foi só no momento pós-guerra que a roupa é utilizada como mecanismo
de defesa, empoderamento, garantia de poder e respeito feminino.
O power dressing surgiu com a necessidade da mulher de 80 marcar sua
emancipação sobretudo no cenário corporativo, o Power Dressing em tradução
direta significa, vestindo poder – surgiu no final dos anos 70. marcando mais
um período onde a moda foi grande aliada a emancipação feminina, fazendo
do vestir a liberdade do ser, mesmo que tendo que de certa forma se
assemelhar a figura masculina para que se tornasse notável, já que a
tendência é marcada por ombreiras gigantes, silhuetas quadradas e
modelagem maximizadas, aspectos que tinham o propósito de esconder o
corpo, renunciando o posto de ‘mulher objeto sexual’, analisando esse
incômodo nos dias atuais é inevitável não arrebatar o machismo embutido na
tendência, porém foi uma das formas que as mulheres da época encontraram
para marcar sua força e competência em profissões e posições que eram e que
a ainda são dominadas por homens.
Há quem diz que a origem do Power Dressing pode ser dedicada ao terninho
da Chanel, de 1920, se o start para essa tendência surge ou não em 1920, não
podemos confirmar, mas o que podemos admitir é que mesmo que a roupa
tenha um significado controverso em determinados ambientes, a moda associada a luta das mulheres por igualdade vem ao longo da história
estabelecendo símbolos de resistência como o surgimento das flappers girls –
uma mulher que através do vestir se mostrava uma mulher livre, ousada e
pronta para tomar as rédeas da sua vida, a forma como se vestiam e se
maquiavam era dita como exagerada, assim como o beber e o fumar, ou seja,
rompiam com o modelo padrão que a sociedade impunha às mulheres e foi
por isso que tiveram um papel preponderante na evolução da sociedade ao
romperem com tradições conservadoras que limitavam o papel da mulher não
lhes dando oportunidade para se emanciparem, entretanto, as bainhas
voltaram a cair e o estilo recatado volta no início da II guerra,
as flappers marcaram a história da moda assim como as minissaias na década
de 60, momento onde os jovens começam a adquirir uma maior consciência e
os movimentos sociais ganham força e aliados, pela primeira vez a sensação
de que a juventude tem o poder de reagir as antigas regras se consolida assim
a moda simbólica, as minissaias passam a ser um símbolo de resistência em
um momento histórico que as mulheres descontroem com veemência a mulher
‘do lar’, a libertadora pílula anticoncepcional chega e o sexo dito como frágil
passa a assumir outros papeis passando a ocupar de forma significativa as
universidades.
As minissaias tornam-se um dos maiores símbolos dessa liberdade recém
conquistada, o vestir deixa de ser algo puramente estético e passa a ser um
ato político, uma contestação dos padrões sociais sendo inclusive adotadas
como indumentária essencial nos protestos feministas. O mundo fashion
oprimiu muito as mulheres na história, porém o corpo feminino, a moda e o
feminismo apurados de forma consciente se transformam em um mecanismo
de força e resistência.

Comentários