- 30 de jan. de 2021
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A moda, já se sabe, é mais do que vestir-se: é fazer-se instrumento, comunicar sem
emitir palavra alguma, é um manifesto. Moda e política andam sempre juntas. Na semana
passada, enquanto o Brasil assistia à primeira aplicação da CoronaVac, os Estados Unidos
acompanharam outro momento igualmente importante: a posse da chapa Biden-Harris, que
governará o país pelos próximos 4 anos. Emergindo depois dos anos nefastos sob a tutela
Trump, os americanos viram mais que dois indivíduos na inauguração. Viram esperança,
representação, futuro e passado.

O que a moda tem a ver com isso? Tudo. Pela primeira vez na história, uma mulher
chegou à Casa Branca sem o título de primeira-dama. Kamala Harris, vice-presidente eleita,
mostrou desde a campanha a que veio - para mostrar que as mulheres cumprem, ocupam,
e precisam de espaço dentro da política. Com palavras firmes e enfáticas, Kamala
evidenciou que o papel feminino não deve ser coadjuvante.
Dentro da política, é comum pensar na mulher como um enfeite, embelezando o
planalto, como o lado humano do presidente ou do partido, à frente de causas sociais, em
posições frágeis como vasos de louça. Trajadas em vestidos mídi, com tailleurs acinturados
e penteados rígidos de fixador, quantas foram as primeiras-damas à sombra da figura
masculina, representado apenas coração, e não a racionalidade?

Durante a maior parte da campanha, Kamala vestiu calças. Parece raso, mas existe uma carga singular na escolha de cada peça. Calças, desde sempre, são simbólicas do masculino. De trabalho, de atividade, de liberdade dos movimentos... de tudo o que, por tantos anos, mulheres não puderam ter. Não por falta de vontade, mas sim porque o esperado era conformidade, cuidado, delicadeza. Mãos ágeis, ceifadas para cuidar de crianças, cozinhar, limpar, pernas de passo delicado, mal tocando o chão, flutuando. As mulheres foram impedidas da praticidade por longos anos. A vestimenta, que foi desenvolvida pensando em guerreiros cavalgando, facilitava o combate e a mobilidade durante o conflito. O primeiro registro de calças data do século VI, na Grécia Antiga, para lutadores em batalha. Para as mulheres, a quem o conflito era reservado para fofocas
domésticas, o uso das calças de forma aceitável e diária aconteceu no século XX.
Na sua trajetória política, a vice-presidente manteve a imagem profissional que já
era esperada na corrida presidencial, mas com elementos disruptivos, fugindo do clássico
pantsuit: Kamala alternada os blazers com jeans, tênis Chuck Taylors, calças skinny. Dessa
forma, pôde se comunicar com a juventude, com as parcelas que talvez não se adornem
com pérolas e tecidos finos, mas que vejam no denim um elemento de identificação. Na
semana da inauguração, vestiu apenas artistas negros: Sergio Hudson, Prabal Gurung,
Christopher J. Rogers, e Kerby John Reymonds, à frente da Pyer Moss, que converteu seu
studio em Nova York em local de arrecadação de fundos de doação focado no COVID-19 e
suas vítimas.
Michelle Obama, Kamala Harris, e Hillary Clinton vestiram roxo para a posse.
Novamente, não foi por acaso. O roxo é um tom imponente, historicamente associado a
posições de poder. Não só, o roxo é fruto da junção de vermelho e azul, as cores que
representam lados polarizados politicamente, republicanos e democratas, nos Estados
Unidos. A união dos partidários tão lateralizados é a intenção da chapa, e tanto Biden
quanto Harris já manifestaram que o povo deve se unir acima e além de lados.
O roxo é, também, uma das cores do movimento sufragista, que aconteceu entre o
final do século XIX e XX. Foi o movimento feminino que pleiteava o direito de votar, tão
básico, mas por vezes esquecido, em especial nos Estados Unidos, onde o voto não é
obrigatório. É simbólico do papel, local, e persistência das mulheres na política. É um
discurso mudo, mas carregado de história e simbologia. É o grito velado das mulheres deste
ano e todos os anos anteriores, clamando por dias melhores. Esperamos que cheguem.

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