- 10 de set. de 2020
- 4 min de leitura
Atualizado: 19 de nov. de 2020

O jeito como enxergamos a roupa mudou drasticamente a partir da segunda metade do século XVIII na Revolução Industrial. Com o advento das máquinas, a produção que até então era feita de forma artesanal e em pequena escala, começou a ganhar outra forma. O sistema que temos hoje deriva dessas modificações, uma produção mais rápida, fácil e barata.
Isso impactou não só a nossa forma de produzir, mas também a forma como consumimos. Segundo a socióloga Diana Crane no livro ‘A moda e seu papel social’, até a Revolução Industrial as roupas estavam entre os itens mais valiosos de uma pessoa. Elas eram feitas para durar e servir de herança, perdurando gerações.
Por tanto, usar roupas de segunda mão era algo natural e sem esforço. Crane relata também
que os tecidos eram tão caros e preciosos que frequentemente serviam como moeda de troca,
substituindo o ouro como pagamento e quando os recursos se tornavam escassos as pessoas
penhoravam suas roupas.
Com o passar dos séculos e todas as modificações sistêmicas da nossa sociedade, esse cenário
mudou e gerou impactos que precisam ser debatidos. Hoje a indústria da moda está dentre as
mais poluentes do planeta e os dados apresentados em uma matéria pela Organização das
Nações Unidas Meio Ambiente são alarmantes: a moda é o segundo setor que mais consome água, produz cerca de 20% das águas residuais e libera 500 mil toneladas de microfibras sintéticas nos oceanos por ano. O setor responde por algo entre 8 e 10% das emissões de gases-estufa, mais que o transporte marítimo e a aviação juntos.
Nos últimos 15 anos o consumo de peças cresceu 60% e cada item é mantido no
armário pela metade do tempo que antes. A indústria da moda está avaliada em cerca
de US$ 2,4 trilhões e emprega mais de 75 milhões de pessoas no mundo. O dado mais
curioso é que ela desperdiça aproximadamente 21% desse valor (US$ 500 bilhões) ao
ano em descarte de roupas que vão para aterros e lixões.
A roupa passou de um bem de consumo durável para um bem de consumo
descartável. Segundo dados do relatório anual de revenda da TherdUp, 1 a cada 2 pessoas jogam suas peças indesejadas diretamente no lixo e menos de 1% do material usado para
produzir as roupas são reciclados pela indústria, dados do relatório “Uma Nova
Economia Têxtil”, apresentado em 2017 pela fundação Ellen MacArthur.
É aqui que o consumo de segunda mão entra como alternativa para aumentar a vida
útil das roupas e diminuir o impacto causado pelas mesmas. No relatório da TherdUp
eles mostram dados bastante relevantes sobre essa questão. Se nesse ano todos nós
comprássemos apenas um item de segunda mão no lugar de um item novo, haveria
potencial de redução de até 2,6 milhões de toneladas na emissão de dióxido de carbono e menos 18,7 mil caminhões de lixo cheios de resíduos que foram empregados na produção dessas peças.
Muitas pessoas ainda oferecem resistência a esse tipo de consumo, por mais que ele
esteja em crescimento. Estima-se que até 2029 o mercado de segunda mão cresça
quase duas vezes o tamanho do mercado do fast fashion. O relatório da TherdUp
confirma essa questão trazendo os seguintes dados: 1 a cada 2 compradores evita ser
visto mais de uma vez com a mesma roupa e 70% afirmam que compram roupas que
serão descartadas. É interessante analisarmos com mais atenção o que desperta essa
relação.
O desenrolar do sistema têxtil pós Revolução Industrial é ambíguo, pois ao mesmo
tempo em que ele foi um ponto de partida para a democratização do vestuário, ele
também foi a base para um sistema que desvalorizou o mesmo. Além dessa
desvalorização, reforçada ainda mais pelo mercado do fast fashion, o próprio sistema
da moda, do alto da sua efemeridade, alimenta o desejo e a “necessidade” frequente
por peças novas numa velocidade cada vez mais rápida.
Como equilibrar isso e ainda gerar menos impacto no meio ambiente? É urgente a
revisão da indústria de ponta a ponta na cadeia produtiva da moda, assim como é
urgente que nós estejamos atentos ao impacto como consumidores. Não é sobre
parar de consumir peças novas ou passar a replicar esse mesmo consumo excessivo
nos itens de segunda mão. É sobre rever os conceitos e consumir com mais
consciência.
Consumir de segunda mão além de ajudar a diminuir o impacto ambiental, como
vários dados mostram ao longo desse texto, é uma ótima experiência para
construção do nosso estilo pessoal e uma ferramenta para estimular a criatividade.
Um exercício para olharmos as roupas por outro ângulo, nos encantarmos com as
histórias e memórias que elas carregam e começarmos a enxergá-las como o que elas
de fato são, itens duradouros (lembre-se, algumas peças de roupa podem demorar de
dezenas a centenas de anos para se decompor!).
Se vestir não é só sobre estar dentro da última tendência ou ter aquela peça com
etiqueta famosa. É sobre imprimir sua “digital”, é sobre falar sem precisar usar
palavras. Afinal, a gente não se veste só para cobrir o corpo e uma roupa nunca é só
uma roupa.
* Gostou desse texto? Uma dica extra é criar novas combinações para as peças que
você já tem no seu guarda-roupa. Além de exercitar o autopercepção do seu estilo,
você colabora na redução do consumo desnecessário e pode se surpreender com a
quantidade de looks que uma peça pode render.

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