- 5 de set. de 2020
- 4 min de leitura
Atualizado: 19 de nov. de 2020

Os tempos mudaram. O digital passou a ser tão (ou até mais!) importante do
que o físico. O ser humano passa a ser de carne, osso e pixels e aprende a
administrar as suas duas vidas com as particularidades que cada uma precisa.
A moda, claramente, não ficou para trás, e veio passando por adaptações à
medida em que as redes sociais se tornaram mais populares e, de um tempo
para cá, se consagraram como essenciais. Com o passar dos anos, o consumo
acelerou e as peças passaram a viajar entre cidades e países sem precisar sair
do lugar. Foi com esse sentimento, de euforia e transformações, que o setor
têxtil decidiu inovar e mostrar, mais uma vez, a sua faceta vanguardista,
criando as roupas digitais.
Mas afinal, o que são as roupas digitais?
Por meio de programas de animação e efeitos visuais, diversas marcas se
lançaram no mundo de criar uma roupa em que a sua existência se baseia unicamente de maneira digital. Os compradores das peças mandam fotos ou vídeos, que logo serão editados para parecerem que essas pessoas estão, de fato, desfilando pelas ruas com as suas novas peças. A foto manipulada é feita de maneira tão realista que nem sempre conseguimos apontar as diferenças entre uma imagem manipulada ou não. Parece mentira, né?
A ideia surgiu observando a oportunidade que crescia nos jogos de videogame,
quando as “skins” (ou roupas) dos personagens passaram a se tornar
importantes. O jogo emblemático de 2014, Kim Kardashian: Hollywood, por
exemplo, gerou mais de 240 milhões de dólares desde o seu lançamento, o
que fez brilhar os olhos de muitos desenvolvedores para o setor fashion digital.
Moschino, Nike, Roberto Cavalli, Karl Lagerfeld, Balmain, Marc Jacobs e
Valentino foram algumas das marcas que não esperaram a oportunidade
passar e criaram peças exclusivas para diferentes jogos. Em 2018, a marca
Carlings lançou a primeira coleção digital, agora já adaptada a “vida real”,
composta por 19 peças diferentes e, embora parecesse uma realidade distante,
todos os 228 itens se esgotaram.
O que faz uma marca criar roupas digitais:
Apesar de parecerem sem propósito ou uma ideia incomprável, as marcas que
vêm arriscando nas roupas digitais justificam a sua aposta: as mídias sociais
trouxeram à moda um ar mais descartável. Influenciadoras, blogueiras e
grandes personalidades costumam usar um look por dia, o que se torna
impraticável quando pensamos no meio ambiente. Além do viés sustentável, a
produção de uma roupa é um processo caro, e que pode ser barateado quando
esse processo passa a ser inteiramente digital, causando uma espécie de
democratização da moda. Somado a isso, a redução de custos abre um leque
de criatividade a todos os estilistas, já que agora não irão depender de
orçamentos de tecidos, linhas e botões (entre tantos outros) para colocarem
em prática todas as suas ideias, por mais diferentes e ornamentadas que elas
possam ser.
A equipe de inovação do grupo Kering, que reúne os maiores nomes do
mercado de luxo, já vem trabalhando para estabelecer o digital nas suas empresas - que não devem demorar muito para começarem a experimentar
novas coleções. E essas inovações não devem ficar só na “gringa”, não! Os
Brasileiros Leandro Benites e Raphael Nascimento lançaram uma colaboração,
agora na quarentena, de um macacão digital.
E não para por aqui
Os meios virtuais continuaram a ser plano de fundo para as principais
mudanças da moda no cenário atual. As transformações que já vinham
acontecendo foram agravadas pela pandemia e o consequente isolamento
social, fazendo com que marcas encontrassem novos meios para dar
continuidade ao seu trabalho. Modelos virtuais foram essenciais nas
apresentações de novas coleções, assim como os desfiles online, que não
conseguiram substituir, mas “taparam um buraco” que a falta das semanas de
moda deixaria.
Baudrillard já falava sobre isso
Mas, apesar de tantas transformações “inesperadas”, essa característica
mutável da moda não é novidade: ela foi fonte de estudo do francês
Baudrillard. Ele, que analisou a sociedade consumidora no livro “A troca
simbólica e a morte”, dedicou um capítulo inteiro à relação entre o fashion,
capitalismo e modernidade, onde definiu a moda como o mito da mudança.
Baudrillard afirma o elo entre modernidade e moda, já que a última depende
demasiadamente do progresso e inovação.
Também não é difícil perceber a teoria que fala sobre o Simulacro, do
sociólogo, quando olhamos para os dias atuais. Segundo ele, o mundo pós-
moderno é regulado pela simulação, que confunde realidade e ilusão. Ele ainda
fala sobre a hiper-realidade, que seria um mundo de simulacros no qual o ser
humano está exposto. Essas teorias são facilmente tangíveis nos dias de hoje,
onde encontramos dificuldade para saber se algo simples, como a roupa de
uma pessoa, pode ser feita de tecido ou pixels.
E essa realidade não está mais tão distante assim. O diretor da Fashion
Innovation Agency da London College of Fashion, Matthew Drinkwater, avalia
que pelo menos 10 anos ainda nos separam de uma realidade na qual roupas
digitais sejam comuns. Seria esse o futuro da moda?
Instagram:
O ser humano passa a ser de carne, osso e pixels e aprende a administrar as
suas duas vidas com as particularidades que cada uma precisa – a física e a
digital. A moda não ficou para trás, e veio passando por adaptações à medida
que as redes sociais se tornaram mais populares e, de um tempo para cá, se
consagraram como essenciais. Foi com esse sentimento, de euforia e
transformações, que o setor têxtil decidiu inovar e mostrar, mais uma vez, a
sua faceta vanguardista, criando as roupas digitais.
Por meio de programas de animação e efeitos visuais, diversas marcas se
lançaram no mundo de criar uma roupa em que a sua existência se baseia
unicamente de maneira digital. Os compradores das peças mandam fotos ou
vídeos, que logo serão editados para parecerem que essas pessoas estão, de
fato, desfilando pelas ruas com as suas novas peças. Um caráter sustentável e
que consegue democratizar a moda são belas justificativas, então seria esse o
futuro da moda?

Comentários